segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

a 1a década

10 anos depois ainda sinto sua falta
10 anos depois ainda penso se a gente ainda seria o que erámos
10 anos depois ainda tento entender o que era quando te conheci
10 anos depois ainda penso em como as coisas eram
10 anos depois ainda penso nas consequências de ter te perdido
10 anos depois ainda culpo o morto que te matou
10 anos depois, mesmo com a vida ter seguido adiante, e tudo parecer fazer sentido, tudo parecer se encaixar, ainda me culpo por não termos tirado nenhuma foto juntas.
10 anos depois, eu continuo vendo a reação dos outros sobre meus atos e palavras, e acho a reação exagerada, mas é que eu me expresso demais, dramatizo demais, me magoo demais, tento me explicar demais, sou compreensiva demais.

ainda tenho o que você me escreveu quando eu briguei com você porque você não ia na minha chácara porque você tinha que ir na casa da sua tia, e daí você ficou explicando que eu tinha que entender, e eu pensei que eu não tinha brigado tanto, que eu tinha mostrado que tinha ficado chateada mas que entendia, mas acho que mostro minha mágoa mais do que a minha compreensão.
mas achei tão bonito o fato de você explicar como você se sentia. que você tinha ficado chateada. acho que não faço isso. na maioria das vezes porque passa rápido mesmo, não me ofendo ou coisa do tipo, mas também porque não quero estragar tudo trazendo assuntos passados. mesmo que o passado seja 5 minutos ou 2 dias atrás. mas acho que foi o jeito que fui criada, tenho medo de brigarem comigo, acho que sou assustada.

e agora eu só mostro compreensão e fico chateada e não demonstro pra não magoar ninguem.
e aí eu fico triste porque eu pareço legal, mas queria demosntrar minha raiva, mas nao sei medir a expressao dos meus sentimentos.

e todo mundo me acha forte e bem resolvida, quando eu sou sensivel e quebrada por dentro, e resssentida e magoada, e choro a toa. e acho que nunca aprendi a viver sem voce. ou talvez eu tenha sido sempre assim, mas voce entendia, e eu nao sabia.

acho que nunca soube quem eu era, e sempre tem aquele momento de reflexao dos anos anteriores, quando eu percebo o quanto eu me achava madura e percebo o quantosou melhor agora. e agora nao percebo mais nada.

eu sei o quanto sempre briguei com o mundo, e isso só me fez parecer revoltada pq eu sou mau-humorada ou irritada. mas eu sou uma criança que quer chamar atençao. eu quero ser percebida e que me deitem no colo e me deem carinho.

e eu lembro do seu abraço. voce abriu os braços pra mim e me deixou chorar.
e que a gente se falava escondida, mas eu nao tive coragem de mentir pra minha mae e ir no seu aniversario de 15 anos. e voce sempre teve coragem.

quand meu vo morreu e voce veio aqui me ver, e minha mae nao sabia que a gente se falava.


e eu escuto minhas palavras enquanto escrevo e me questiono da minha fragilidade ou força.
da superação ou remorço. da maturidade ou da frescura.

mas você partir mudou tudo. porque eu sempre fui sozinha, e fazia voce de apoio. e me apoiei nele depois. e me soltei. e tenho um filho. e você disse pra eu ir em frente. e hoje eu sei que era pra vida, e não pra ele.

eu tenho minhas amigas, cada uma delas tem um pedaço de você.

e eu sei, que a dor que eu sinto não é maior que a da sua mãe, do seu irmão, mas é minha.
e também sei que tudo isso não tem 100% a ver com a sua ausência, mas sim de mim, e do antes e depois de você. antes de eu te conhecer e depois de você morrer.

e eu sinto muito nao ter ligado pra me despedir. sinto nao ter estado aqui pra me despedir. sinto voce ter tido que ir. sinto nao ter falado antes. sinto ter brigado tanto com voce depois que voce foi. nao foi culpa sua. e o culpado esta morto. e está tudo bem. a vida tem que seguir.

mas as vezes eu fico tao fraca que acho que queria voce. e nao queria te perturbar.
voce sempre soube mais da vida do que eu. voce sempre foi mais cool. voce sempre foi o que eu queria ser. e a presença que a minha mae nao queria na minha vida. e entao voce nao esteve mais.

e eu ainda me culpo por tudo o que pensei. pela raiva que fiquei.

e a culpa nao é sua. a culpa nao é dela. a culpa é minha de ser assim e me preocupar e me culpar por tudo. e entao eu percebi que meu pai tbm é assim.

e tento lembrar do q falava pra vc deles pra lembrar como as coisas eram. e as vezes me vem coisas que nunca tinha lembrado, e tudo se completa e eu fico com mais raiva.

e eu só quero pegar meu filho e ir embora daqui. pq as coisas fazem sentido. e depois eu acho que nao e acho de novo que eu dramatizei demais tudo. que eu falei demais, sofri demais. xinguei demais e me desgastei demais. mas dai alguma coisa dá errado e eu vejo que as coisas sao assim mesmo, nao sou eu que exagero. e dai eu falo de novo, sofro de novo, xingo de novo, e me desgasto de novo.

e acho que todo mundo ja cansou de mim. menos voce, que nao esta aqui. e eu sinto muito. sinto sua falta. muita, may. feliz aniversário.

eu lembro que queria fazer tudo o que eu sabia que voce queria fazer, como se eu precisasse completar sua vida. e entao eu percebi que voce tinha feito tudo o que voce tinha que fazer antes de partir, e que eu tinha que viver a minha vida pq eu ainda estava viva. e me sentia culpada de nao me sentir culpada, e só ficava triste de voce nao estar. mas triste a ponto de achar absurdo estar sol e as crianças brincarem na rua, pq era errado o dia ser feliz se voce nao estava aqui.

e eu sei que a minha dor nao é maior que a da sua mae.

e eu sei que meus problemas pessoais se misturam a sua existencia e ao fim dela. parece que nada mudou. 10 anos depois. e sempre parecia que as coisas melhoravam, que estavam melhorando. mas dai sempre acontece alguma coisa e parece que nao.

e eu desabafo. e tento nao ligar. mas eu explodo tao facil. nao tao forte.

e eu nao quero ser chata. nao quero me isolar por achar tudo chato.

to com raiva de psicologia tambem. o que eu sou, como me vejo, como as pessoas me vem. mas acho que é porque nao quero questionar o que nao me interessa. estou mimada, irritada. e entao acho que estou virando ela, agindo como ela. e dai fico com mais raiva.