Queria dizer que nunca pensei em me matar. Mas é mentira. Eu já tive dias sombrios em que pensava que a única solução era pular da janela com meu filho no colo. Mas não foi aos 27. Foi aos 26.
Um dia uma amiga que eu só encontrava duas vezes por ano me disse "Carol, eu não sei se você está assim ou se é coincidência de quando eu te vejo você estar mal". E então eu me dei conta de que ia trabalhar chorando a maior parte dos dias.
Voltei pra análise. E minha casa pegou fogo. Tive crise de ansiedade. Taquicardia. Falta de ar.
Não sei mais dizer o que faltava. Mas acho que era a minha falta de controle. Eu sou controladora. Eu sou obcecada. Eu preciso de planos. Preciso saber o que vou fazer, como e quando. E eu não tinha nada disso.
Ao mesmo tempo em que estava feliz, fazendo teatro e com todas as coisas bonitas de ser mae, meu trabalho não me satisfazia, nem profissionalmente, nem financeiramente.
Me sentia quase bipolar. E meu corpo sentia. Diagnóstico de fibromialgia. Antidepressivo. Calma.
As dores melhoraram. Minha cabeça melhorou e eu consegui enxergar a luz no fim do túnel. E voltei a fazer planos. Mas sempre tinha uma parte de mim revoltada.
Quando eu cheguei aos 26 solteira eu cansei. Eu tinha planos pra mim de ter outro filho com a mesma diferença de idade entre eu e meu irmão e não havia a menor possibilidade. O calendário fechou. E eu me fechei. "Tarde demais pra mim. Se não foi até agora, não sera mais."
Eu sempre fui ótima pra dar explicações. Eu não minto. Mas tenho justificativa pra cada ato. Acho que tem a ver com a questão artística da coisa, entrelinhas do texto, ação e reação, escolhas e motivações. Me explico muito. Não quero ser mal interpretada. Eu tenho medo de julgamentos. E eu tenho necessidade de ser compreendida. Carente. E eu mesma sempre me julguei por ser carente demais.
Então no processo da reforma da minha casa, me deu um estalo. Um entendimento. Uma mudança de pensamento ou a simples aceitação da minha vontade.
Sempre foi só eu e o meu filho e eu adorava isso. Tinha planos pra vida inteira de passeios e coisas que poderíamos fazer juntos. Mas cada vez que estava em casa com meu irmão e o matheus eu sentia falta de alguém. Alguém pra rir, pra acompanhar o crescimento do Matheus, alguém pra cuidar de mim e dele ao invés de só eu cuidar de tudo sempre.
Mas eu sou quase bipolar (gente de signo dirá que é porque sou de gemeos), e as vezes eu queria muito e as vezes não queria nada com nada. Pra que mexer no que tá bom? Não tenho tempo pra essas coisas. E eu me cobrava por ter minhas desculpas na ponta da língua.
Quando cheguei nos 27 eu estava melhor. Sem remédios. Sem dores. Sem obsessões por relacionamentos que não dão em nada e nem por casar. Estava me amando pela 1a vez. Mas ainda nao estava pronta.
Eu sabia que não ia morrer aos 27. Eu não queria. Eu não precisava. Eu estava 5 kg mais gorda devido a viagem mais legal da minha vida. Aprendi um novo idioma. Me endividei até a alma. E vi coisas lindas e comi muita coisa boa.
Bati o carro 2 vezes em 6 meses. Fui no Silvio Santos. Fui no rock in rio. E nesse meio tempo tinha alguém ali. Alguém que me mandava bom dia e me fazia sorrir. Eu não estava pronta. Eu sabia que não ia ter volta. Eu gostava das bandas que ele me mostrava. Eu gostava do que sabia sobre ele. E eu fiquei com medo de ele sumir quando descobriu que eu tinha um filho.
Um dia ficou claro que eu não podia mais fugir. "Vamos nos encontrar pra falar sobre o MC catra no rock in rio?" Cervejas a meia noite na praça. Conversas e risadas até o amanhecer. Ele não me beijou. Ele não tentou nada. E essa foi a melhor parte.
Ele me beijou de volta quando eu aproximei meis lábios dos dele no silêncio do olhar.
E a 1a coisa que contei pra um amigo no dia seguinte quando cheguei no trabalho foi "eu conheci um cara ontem, e eu estou apaixonada." "Sai desse corpo, como assim?" Mas foi simples assim.
Aquela semana foi digna de roteiro de filme de comédia romântica, com direito a encontro por acaso enquanto a música que ele me apresentou tinha acabado de começar a tocar no aleatório. Coincidência ou destino? Eu sou fatalista, pra mim foi coincidência, das boas. Mas pra ele era destino. Gostei.
Foi rápido. Tudo rápido. Mas meu medo ainda estava lá. De várias formas.
De me decepcionar. De acreditar no que ele me falava e nas declarações em forma de música que a gente se fazia.
E de mim. De tudo ser verdade e eu não saber lidar com aquilo. Recuei. Ele não. Fiquei. Estou.
Mas além da bipolaridade e da obsessão por controle, eu sou pessimista. E tudo estava bom demais pra ser verdade. Mas a verdade é que eu não estava acostumada com a felicidade. Em ter alguém pra cuidar de mim. Em ter alguém que se importa bcomigo. Que me trata bem.
A depressão do meu irmão foi o gatilho pra crises de ansiedade voltarem. Pânico. Eu tive medo do medo. Medo de desmaiar. Medo de atravessar o aeroporto sozinha. Eu chorava no banheiro e voltava pro trabalho.
E sem seu abraço no fim do dia, eu não sei o que seria de mim.
Você fez a minha vida mais completa. Fez de mim uma pessoa mais feliz. Me fez querer mudar de planos. E eu não tenho mais medo.
28. Sobrevivi. E vivi. E amei. Amém.